sábado, 22 de junho de 2013

OS TAPETES RHEINGANTZ e A PRIMEIRA FIAÇÃO PENTEADA DO BRASIL

A valorizada logomarca da Rheingantz

Tecidos de algodão no Distrito Federal
Em 1895 resolveu, o Comendador Rheingantz, fundar uma indústria de tecidos de algodão no Distrito Federal,. Lá seu filho mais velho, Carlos Frederico, estava para concluir o curso de engenharia. Ficou encarregado da montagem da fábrica um irmão do Comendador, Luiz Valentim Bernardo Rheingantz, nascido na Colônia de São Lourenço-RS em 1861, engenheiro civil pela Universidade de Zurich – Suíça. Infelizmente, ainda durante os estudos para a montagem da fábrica, foram ambos atacados pela febre amarela, falecendo Carlos Frederico a 4 de maio de 1895, e Luiz Valentim 9 dias depois. Com a perda do filho e do irmão, Rheingantz abandonou a iniciativa dessa fábrica.

A primeira fiação penteada do Brasil

As pradarias do Sul e os campos ricos da fronteira, povoados por rebanhos diversos, entre os quais se destacam os de gado ovino, com raças lanígeras apuradas que forneceram as fibras àquela próspera e ativa indústria têxtil, cujos panos e artefatos conquistaram renome e dominaram o mercado consumidor, têm sua história econômica ligada ao nome de um dos mais ilustres rio-grandenses, o Comendador Carlos Guilherme Rheingantz, cujas iniciativas, no campo industrial, pastoril e agrícola, representam a semente que, lançada em fins do século XIX, frutificou nos dias atuais através das grandes realizações de uma população inteira dedicada ao trabalho produtivo do pastoreio, agricultura e indústria. (Revista Paulista de Indústria, dezembro de 1955, nº 41 – separata)

Depois de tentar, com grande prejuízo, reviver a triticultura nos campos rio-grandenses, o Comendador toma nova iniciativa pioneira instalando, em 1904, a primeira fiação penteada do país, após minuciosos estudos e planejamentos concluídos em 1902, possibilitando à COMPANHIA UNIÃO FABRIL a fabricação de tecidos finos, casimiras, etc.

Destaque deve ser dado para o fato de a UNIÃO FABRIL ter sido a primeira indústria brasileira a fabricar panos de lã para as forças armadas nacionais, no fim do século XIX, quando eram importados da Europa.
O minucioso trabalho inicial com a lã na União Fabril


Os inigualáveis tapetes Rheingantz

Não se sabe a origem do tapete, não tendo sido encontrado um ponto de partida que possa servir como referência. Tem sido apresentada a versão de que as Índias instituíram seu fabrico e uso, parecendo possível porque nenhum outro país levou a um ponto tão avançado essa indústria, ou generalizou tanto o costume de uso desse objeto, embora outras referências o encontrem mais longe, na antiga cidade de Damasco e na pré-histórica China. O tapete é um objeto de luxo suntuário, acima de tudo elemento valioso de beleza para a decoração dos interiores e para a criação dos ambientes de conforto, tanto do lar como dos escritórios. Através dele conhece-se o gosto, a distinção e o refinamento de homens e povos, e até da sua própria cultura, através de sua utilização e fabricação. O Brasil sempre esteve colocado em excepecional posição pelo desenvolvimento conseguido por sua indústria de tapetes, concorrendo em perfeição e beleza com os centros mais adiantados do mundo nesse setor. A União Fabril produzia maravilhosos exemplares de tapetes, em quatro qualidades e em todos os estilos imagináveis, desde a miniatura e a filigrana dos desenhos persas até a geométrica sobriedade dos desenhos modernos, sempre com a famosa marca “RHEINGANTZ”.
Tapetes RHEINGANTZ sendo produzidos

Veja mais do mesmo autor:
www.blogdorheingantz.blogspot.com

Texto aproveitado do livro a ser editado "Dr.Oscar - e Seus Empreendedores Ascendentes", do autor deste blog.

sábado, 6 de abril de 2013

O PIONEIRO DA INDÚSTRIA TEXTIL BRASILEIRA

Comendador Carlos Guilherme Rheingantz
Pintura a óleo por Gustavo Rheingantz, pertencente ao autor deste blog
Carlos Guilherme Rheingantz nasceu em Pelotas-RS a 14 de abril de 1849, filho mais velho de Maria Carolina von Fella e Jacob Rheingantz, o fundador da Colônia de São Lourenço.

Em 1857, com oito anos de idade, viajou sòzinho em navio a vela para Hamburgo, matriculando-se no curso do profº Dr.H.Schleiden, concluido em 1865, completando sua formação cultural percorrendo
diversos países europeus, inclusive a Rússia. Regressou a Pelotas decidido a fundar uma indústria de tecelagem.
Maria Francisca e Carlos Guilherme

Casou-se em Rio Grande, a 1º de março de 1873, com D.Maria Francisca de Sá, filha do Comendador Miguel Tito de Sá e de D.Maria Delfina de Miranda Ribeiro.

Em julho de 1873, juntamente com seu sogro e o alemão Hermann Vater, constituiu a firma RHEINGANTZ & VATER, com o capital de 90 contos de réis, montando no mesmo ano a primeira fábrica de tecidos de lã no Brasil, a Companhia União Fabril, com sede na mais antiga cidade do Rio Grande do Sul, fundada em 1737: Rio Grande. As filiais espalharam-se por todo o Brasil, e assim 
nasceu a indústria de tecidos de lã no Brasil. A União Fabril foi a primeira e, por muitos anos, a única no gênero em todo o país, logo Rheingantz estreitando contatos com os países europeus visitando, constantemente, suas indústrias, daí resultando melhoramentos cada vez maiores nos estabelecimentos da União Fabril, sempre antecipada nas realizações do ramo têxtil brasileiro. No começo do século XX visitou os EUA.
Frente da União Fabril e sua diretoria, 1923
Muito embora as Indústrias Rheingantz tivessem se estabelecido no extremo sul do país, sua criação ocorreu em fase tão precoce que é impossível ignorá-las devido ao seu pioneirismo. Ainda que Pelotas oferecesse maiores recursos financeiros, a cidade de Rio Grande foi escolhida para sediar essas empresas por ser o único porto marítimo do estado, por onde passava toda a importação e exportação. (Günter Weimer, apresentação da obra UMA VILA OPERÁRIA EM RIO GRANDE, de Vivian da Silva Paulitsch, 2008)

Com o falecimento de Jacob Rheingantz, Carlos Guilherme assumiu a direção dos trabalhos que vinham sendo realizados na colonização de São Lourenço do Sul, passando-a um ano após a seus irmãos por necessitar de dedicação exclusiva sua indústria têxtil em Rio Grande. 
        
Industrial de Chapéus: apesar do ambiente avesso às realizações industriais, estendeu sua atividade à cidade de Pelotas adquirindo, em 1881, a Fábrica de Chapéus Pelotense que ganhou, sob sua orientação, novo impulso e desenvolvimento.
Comenda do Rosa, pertencente ao autor deste blog

Comendador: em 27 de outubro de 1883, face ao trabalho desenvolvido para o surgimento e implantação da indústria da lã no Brasil, foi agraciado por Decreto Imperial com a Comenda da Ordem da Rosa, que lhe foi entregue por D.Pedro II.

TriticultorSempre preocupado com o progresso, lançou-se Rheingantz na cultura do trigo em escala comercial, contratando um conhecido técnico alemão que, durante alguns anos, percorreu detalhadamento o Estado estudando as possibilidades de cada região optando, afinal, pelo município de Dom Pedrito. Comprou terras para cultivos experimentais que, com sementes obtidas em várias partes do mundo, não deram satisfatório resultado econômico, tendo o Comendador se convencido da dificuldade do cultivo desse cereal em larga escala.

Primeira tecelagem de algodão brasileiraa 11 de fevereiro de 1884 a sociedade RHEINGANTZ & VATER foi dissolvida, sendo a emprêsa reestruturada sob a forma de Sociedade em Comandita, sob a razão social de Rheingantz & Cia., e capital social de 600 contos de réis. Foram ampliadas as instalações industriais com a montagem, ao lado da fábrica de tecidos de lã, de outra destinada ao fabrico de panos de algodão, a primeira a produzir esses tecidos no Estado do Rio Grande do Sul e no Brasil. 
O desenvolvimento das atividades provoca sucessivos aumentos de capital, elevado para oitocentos contos de réis em 1886 e mil contos de réis dois anos após. Nessa época, a fábrica estava bastante desenvolvida fabricando cobertores, panos, capas e sarjas, graças à tenacidade de seu fundador que soube superar as condições de um meio estranho destituído de recursos, apenas um centro de importação e exportação como era a cidade de Rio Grande. 
Ryeland

Corriedale

Merino Australiano

Polwarth/Ideal

Romney Marsh

A sociedade anônima e a atividade pastorilem 1891, o Comendador tomou a iniciativa de juntar à atividade de tecelagem a produção da matéria-prima, a lã, transformando a Sociedade Comanditária em S.A. - COMPANHIA UNIÃO FABRIL E PASTORIL, capital de cinco mil contos de réis. Contratando um zootecnista inglês, adquiriu valioso plantel de reprodutores ovinos das raças Merino Australiana, Corriedale, Romney Marsh e Polwarth (Ideal), cuja produção logo foi distribuída para os fornecedores da empresa, assim como alguns poucos exemplares da raça inglesa Ryeland. Durante a revolução de 1893 as tropas cruzaram várias vezes através dos campos de criação de ovinos da empresa, abatendo para seu consumo quase todos os animais incluido o valiosos plantel de reprodutores importados, e o inglês responsável pelo projeto ovino irritou-se e voltou para a Inglaterra.
Não fosse a revolução, certamente Carlos Guilherme teria contribuído para maior e melhor desenvolvimento da produção de lã estimulando os estancieiros daquela época. Em consequência, a denominação da sociedade passou a COMPANHIA UNIÃO FABRIL, em 18 de julho de 1895, reduzindo seu capital social para 3.500 contos de réis. Ainda nessa ocasião, o Comendador foi insistentemente convidado por Joaquim Francisco de Assis Brasil para aceitar candidatar-se à presidência do Rio Grande do Sul, recusando sempre por sua declarada aversão à política, apesar de ter sido vereador em Rio Grande.

No Rio Grande do Sul, as situações de desenvolvimento determinadas pelo encilhamento e, mais tarde, pela reforma aduaneira, durante o governo de Campos Sales, contribuíram para o surgimento de indústrias e para a expansão do setor têxtil. Assim, excetuando a Cia.União Fabril, todas as outras fábricas de tecidos do Estado se instalaram no período republicano.
O complexo industrial da União Fabril

A Cia.União Fabril (ex Rheingantz & Vater) foi fundada em 1874, em Rio Grande; 
a Cia.Fiação e Tecidos Porto-Alegrense, em 1891, em Porto Alegre; 
Santos Bocchi e Cia., Cia. de Tecelagem Ítalo-Brasileira em 1906, em Rio Grande;
Cia.de Fiação e Tecidos Pelotense S/A, em 1908, em Pelotas; e a Cia.de Tecidos de Lã, 
em 1909, em Caxias do Sul. (Günter Weimer, apresentação da obra UMA VILA OPERÁRIA EM RIO GRANDE, de Vivian da Silva Paulitsch, 2008)


Texto desta postagem adaptado do livro a ser brevemente impresso “Dr.Oscar”, do autor deste blog.




quarta-feira, 31 de outubro de 2012

JACOB RHEINGANTZ E A COLONIZAÇÃO DE SÃO LOURENÇO DO SUL - V


Morre Jacob

Após a obtenção da posse incontestável das novas áreas, traçadas novas picadas, demarcados novos lotes, abertas novas estradas e caminhos, realizada nova seleção rigorosa dos elementos capazes e idôneos para povoar as novas terras, Jacob decidiu visitar as novas condições da Alemanha depois da guerra de 1870. Certo de que a colônia, tranqüila e próspera, progredia em ordem, podendo dispensar por algum tempo sua presença, embarcou para sua terra natal que há 20 anos não visitava. Pouco depois de chegar, faleceu inesperadamente em Hamburgo a 15 de julho de 1877, quando se dedicava aos trabalhos para a ampliação e desenvolvimento de sua obra. Sua morte, prematura aos 60 anos de idade, foi muito sentida, pois ainda estava Jacob Rheingantz na plena posse de sua capacidade física e intelectual, e muito ainda se esperava de sua ampla visão realista, de sua incansável dedicação, e da confiança nele depositada para o desenvolvimento daquela colônia.
Com a morte de Jacob, assumiu a direção de seus negócios o filho mais velho, Carlos Guilherme que, aos 25 anos (em 1873), fundaria na cidade de Rio Grande a primeira fábrica de tecidos de lãs do Brasil, posteriormente conhecida por União Fabril e Mercantil, inaugurando a “era da indústria capitalista brasileira”.
Os sucessores do Fundador insistiam, como ele o havia feito, para que o Governo cumprisse a parte que lhe competia, numa clara definição de responsabilidades. Mostrava a sucessão de Jacob Rheingantz que não se restringiriam a recolher a herança material que lhes cabia, assumindo o mesmo interesse e zelo pelo bem estar moral e espiritual dos colonos, com mão firme tomando as rédeas da empresa, assumindo seus encargos, prosseguindo na obra de colonização desenvolvendo-a e ampliando-a de acordo com a orientação inicial.

Merecendo reverencias e tributos de gratidão à sua memória do Barão de Lucena, então Ministro da Agricultura, o pensamento:
“A Colonia de São Lourenço é uma maravilha, e Jacob Rheingantz um benemérito”.



Esta postagem baseia-se no livro a ser brevemente editado, deste bloguista, intitulado "Dr.OSCAR".

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

JACOB RHEINGANTZ e SÃO LOURENÇO DO SUL - IV


O trabalho de Jacob


Jacob Rheingantz viu realizado o seu sonho dourado, com a chegada dos primeiros colonos, 88 pessoas embarcadas no “Twee Vrieden”, em Hamburgo, a 31/10/1857.
A colônia iniciou com grande pobreza, devido à falta de recursos. Consta que apenas existiam as casas de Antonio Francisco de Abreu e de José Antonio de Olivieira Guimarães, sendo as demais vivendas, pequenos e acanhados ranchos. Não foi possível completar a colonização em cinco anos, face à precariedade das instalações e outros motivos de ordem material, resolvendo então o governo conceder um auxílio por pessoa autorizando, ainda, a construção de estradas na zona colonizada, mas que não constituía um favor e, sim, estímulo e apoio moral a Jacob Rheingantz.

São Lourenço desenvolveu-se, crescendo e prosperando até atingir sua autonomia sob a forma de município, única e exclusivamente sob a administração privada sem necessidade de ser encampada pelo governo.

A grande casa construída por Jacob Rheingantz para sua família (figura do livro de V.Coaracy)


Reuniões entre os colonos e o fundador, em sua grande casa, marcaram o progresso do empreendimento que, como é natural, enfrentou vários problemas e crises. Numa delas, em 24 de agosto de 1862, resolveram que seriam eleitos “inspetores” para zelar pelo bem geral e pela ordem, um para cada Picada; foram eleitos 6 inspetores, sendo eles: George Born (do distrito do arroio de S.Lourenço até o arroio Cachoeira), Bernardo Schneider (do arroio Cachoeira na Picada dos Moinhos até a Roça), João Dietrich 2º (da Roça até o arroio Bom Jesus, inclusive a Picada das Antas), Fernando Nickel (do arroio Bom Jesus à Picada Bom Jesus), João Becker (desde a Roça e Picada da Boa Vista até Felix Soares) e Carlos Ritter (para a Picada dos Quevedos). Os eleitos, aceitando, estabeleceram uma “Carta de Deveres”(Coaracy, 1957, p.71), tanto para os inspetores como para os colonos. Ainda neste mês, foi firmado o compromisso dos colonos em contribuir para a construção de uma escola, assim como para o pagamento aos professores, comprometendo-se Jacob de comprar as telhas doando, também, o respectivo terreno, ao final tendo sido lavrado documento em alemão (Coaracy, 1957, p. 77). Em 1863 surgiu a primeira escola, em Picada Moinhos, chegando a 16 no ano de 1877.

A solução das escolas particulares não era totalmente satisfatória, pois o ensino apresentava deficiências inevitáveis. As condições rústicas de moradia numa Colônia não tentariam professores afeitos ao conforto urbano, a menos que lhes fosse oferecida uma boa remuneração, o que era inviável, ocupando o lugar dos mestres alguns dos colonos, nem sempre dotados de suficiente instrução. Consciente disso, em todos os relatórios anuais que o Diretor da Colônia enviava ao Governo da Província, insistia sobre a necessidade de dotar a Colônia de escolas públicas que se enquadrassem no sistema de instrução brasileiro.
Em relação ao culto religioso, deveria ser considerado que a maioria dos colonos era protestante, divididos entre várias denominações evangélicas, existindo ainda uma parcela considerável de católicos. Não querendo tomar qualquer iniciativa, Jacob preferiu deixar que os próprios colonos resolvessem, por acordo entre si, o problema, o que não ocorreu. No ano seguinte, numa proposta do Diretor datada de 30 de novembro de 1865, este doaria para cada religião 6.000 braças quadradas de terra na entrada da Picada Boa Vista, canto da Picada dos Moinhos, à direita para uma e à esquerda para outra religião, devendo ser vendido pelo melhor preço aquele terreno que já havia sido por ele doado a esta causa.
Passava a colônia por um período turbulento, Jacob e família sentindo-se ameaçados. Com a “aposentadoria” dos chamados COLONOS INSPETORES em virtude do envio pelo governo provincial de um destacamento policial comandado pelo tenente Francisco de Sá Queirós (não entendia alemão), destacamento mal recebido por desagrado geral. Um edital publicado em 25 de novembro de 1867, assinado por Sá Queirós, gerou um clima de inconformidade entre os colonos. Tal “edital”, resumido, determinava a proibição de armas pelo moradores da colônia, dizia que os falecimentos teriam de ser comunicados sem demora pelos familiares, e que os enterros sòmente seriam realizados após a apresentação do respectivo atestado de óbito firmado por médico; ditava que a realização de bailes públicos ou particulares só ocorreriam com sua prévia licença e, sob pena de prisão, proibia ajuntamento com mais de 3 pessoas e jogos nas vendas.
O clima gerado pelo documento causou grande inconformidade entre os colonos, trazendo à tona várias queixas contra Jacob Rheingantz. Um grupo de aproximadamente 200 invadiu o Quartel do destacamento, desarmando seus policiais e apoderando-se de suas armas indo, após, até a residência da família Rheingantz, invadindo-a e destruindo suas dependências e mobiliário. Exigindo que Jacob assinasse documentos declarando ter entregue “dinheiros recebidos”, e dar quitação de outras importâncias, sob coação fizeram  o Ten.Queirós assinar como testemunha da extosão. Abandonando a Colônia, o “fundador” foi para Rio Grande, relatando o ocorrido ao Governo Provincial. Em janeiro de 1868 foi enviada uma força policial de 68 praças, comandados pelo Barão de Kahlden (diretor da Colônia de Santo Ângelo) e o Chefe de Polícia da Província, para restabelecer a ordem e, prendendo os 5 cabeças do motim, removeu-os para Pelotas onde foram processados. Ao fim de alguns meses, o Barão de Kahlden conseguiu restaurar as antigas condições de harmonia e trabalho, e Jacob retornou à Colônia reassumindo sua direção.
Muito mais dispendeu Jacob com seus agentes na Europa, e a subvenção fora paga para apenas 1440 colonos, na época já com alguns milhares estabelecidos. Foi uma obra de grande sacrifício, mas de extraordinária relevância para o desenvolvimento do país, obtendo o serviço prestado por Jacob Rheingantz maior mérito por se tratar de uma colônia isolada, onde todas as iniciativas eram cercadas das maiores dificuldades, merecendo reverencias e tributos de gratidão à sua memória, vindo do Barão de Lucena, então Ministro da Agricultura, o pensamento 

“A Colonia de São Lourenço é uma maravilha, e Jacob Rheingantz um benemérito”.

Esta postagem baseia-se no livro a ser brevemente editado, deste bloguista, intitulado "Dr.OSCAR".




segunda-feira, 13 de agosto de 2012

JACOB RHEINGANTZ e SÃO LOURENÇO DO SUL - III


A colonização 

A 18 de janeiro de 1858 chegam os primeiros colonos, 88 pessoas embarcadas no “Twee Vrieden”, em Hamburgo a 31/10/1857, instalando-se nas picadas dos Moinhos e de São Lourenço, onde tudo era mata virgem dotada de madeiras de lei.

Simulação da "chegada dos colonos em 1858", do álbum oficial do sesquicentenário
da imigração alemã.

Desanimada aquela gente, antes tão disposta ao trabalho, coube a Jacob Rheingantz tomar as providências para que não fracassem seus esforços, e as picadas e caminhos foram abertos levantando-se ranchos e acampamentos, adiantando-se prodigiosamente o trabalho de colonização. A cada colono competia uma área de 100 braças de frente por 1000 de fundo, salvo quando na condição topográfica do terreno não fosse permitido tal extensão.
Jacob emprestava dinheiro particular para os colonos, documentado conforme a seguir:

“Nós abaixo assinados declaramo-nos devedores das   somas mensionadas junto às nossas assinaturas, a saber:     12 famílias pelo total de táleres 1.626 ½, recebidos em    Hamburgo dos srs.Wilhelm Hühn & Cia., e nos obrigamos      a seguir, logo depois da nossa chegada ao Rio Grande,      para a Colônia de São Lourenço, pertencente ao      sr.J.Rheingantz, e a pagar as somas recebidas daquele senhor à sua ordem, o mais tardar depois de 2 anos, e     mais os juros à razão de 6% ao ano até final reembolso. Hamburgo, 21 de junho de 1861 (seguem-se 12 assinaturas, legalizadas com o “visto” do Consulado    Geral do Brasil em Hamburgo).”

Rheingantz estudara atentamente a legislação brasileira, não só em relação à colonização, prevendo as emergências eventuais, tudo calculando e medindo, empregando no empreendimento todas suas energias, vontade e recursos, sabendo exatamente quais os fatôres a levar em consideração para o seu sucesso. Sua dedicação ao projeto foi mais importante do que o conjunto de elementos derivados do estudo e da ponderação. Do seu ponto de vista, a Colônia de São Lourenço não era apenas uma iniciativa comercial, uma aplicação de capital e trabalho destinada a proporcionar, no futuro, lucros e proveitos compensadores, mas uma obra que realizaria, uma criação do seu espírito e da sua vontade, fazendo surgir de uma região bruta e agreste um centro humano de atividade produtora, transformando a terra virgem em fonte de riqueza, facultando a compatriotas seus, descontentes com as condições de vida na Europa, a oportunidade de erguer um lar, desbravando pelo trabalho um solo que viria a ser dêles, realizando uma aspiração que na Alemanha não se tornava possível.

            Das diversas emprêsas de colonização no Brasil, sòmente uma iniciativa não malogrou: a colônia de São Lourenço, fundada por Jacob Rheingantz na Serra dos Tapes, à margem do curso sinuoso do Camaquã, município de Pelotas, no Rio Grande do Sul, vencidas as dificuldades naturais a êste gênero de empreendimento desenvolvendo, crescendo e prosperando até atingir sua autonomia sob a forma de município, única e exclusivamente sob administração privada sem necessidade de ser encampada pelo governo, como ocorreu com todas as demais, graças ao espírito com que o fundador concebeu-a e orientou-a, conduzindo o seu desenvolvimento. Jacob dominou todos seus atos e iniciativas com a preocupação pelo empreendimento, com o bem-estar e satisfação dos colonos revelada nas concessões que lhes fez em numerosas ocasiões, pelos auxílios generosos com que favoreceu a criação de escolas e igrejas na Colônia e, desde o início, na construção de sua mansão familiar, a casa de sua residência, no seio da própria Colônia para estar no centro de sua obra, acompanhando de perto o seu crescimento.

Moinho e Casa Comercial Göscher, S.Lourenço do Sul


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quarta-feira, 25 de julho de 2012

JACOB RHEINGANTZ e SÃO LOURENÇO DO SUL - II




O projeto

A Colônia de São Lourenço, fundada em 1858 por Jacob Rheingantz na Serra dos Tapes, à margem do rio Camaquã, município de Pelotas - Rio Grande do Sul, desenvolveu-se crescendo e prosperando até atingir sua autonomia sob a forma de município, única e exclusivamente sob a administração privada, sem necessidade de ser encampada pelo governo.
A dedicação de Jacob ao projeto foi muito importante. Do seu ponto de vista, a Colônia de São Lourenço não era apenas uma iniciativa comercial, uma aplicação de capital e trabalho destinada a proporcionar, no futuro, lucros e proveitos compensadores, mas uma obra que realizaria, transformando uma região bruta e agreste num centro humano de atividade produtora, facultando a semelhantes seus a oportunidade de erguer um lar fecundado pelo trabalho num solo que viria a ser dêles, realizando uma aspiração que, na Alemanha, não se tornava possível, contribuindo para o bem estar de muitos e para a incorporação de novas glebas de lavoura às imensidades do jovem Brasil.
Obedecendo a sua inspiração, providenciou logo a construção de sua mansão familiar, a casa de sua residência, no seio da própria Colônia, acompanhando de perto o crescimento de sua obra.        
A entrada na "mansão de Jacob Rheingantz ...
... e sua frente, em 1958.

Em 30 de outubro de 1855, o vereador Domingos José de Almeida, destacado líder da Revolução Farroupilha e uma das mais importantes personalidades da Província, responde a uma consulta de Jacob Rheingantz, estimulando-o a prosseguir no trabalho de colonizar São Lourenço, com os seguintes trechos:





“Importo Vmçe. por apresente de que na Freguezia de    Boqueirão existe um ótimo terreno devoluto, com       proporções para acomodação de mais de quinhentas      famílias que queiram cultivar e enriquecer-se do produto da lavoura e da indústria, que podem          desenvolver pela facilidade de transporte da Lagoa dos          Patos que lhe fica próxima. Não desista do projeto         concebido, contando como deve contar com o franco e          leal apoio do Exmº Sernhor Presidente da Província, e comigo para tudo o mais em que Vmçe. espera ser      prestável.    De Vmçe. At: Vr.Creado as. Domingos José de          Almeida.” (acervo do Museu da Biblioteca Pública Pelotense).

Do trabalho de mestredo de Eduardo Yepsen, 2008, pág. 42, “JACOB RHEINGANTZ e a COLÔNIA DE SÃO LOURENÇO, DESCONSTRUÇÃO DE UM MITO e RECONSTRUÇÃO DE UMA HISTÓRIA”:

            “Em 1857 Jacob Rheingantz formou uma sociedade com José Antônio Oliveira Guimarães, luso-brasileiro muito rico e morador à margem esquerda do rio São Lourenço que já havia doado 1/8 de légua para a construção de um vilarejo no litoral de São Lourenço em 1850. Nesta sociedade, com a finalidade de estabelecer uma colônia agrícola na Serra dos Tapes, num contrato com a duração de 5 anos sujeito a prorrogação se interessante aos dois sócios, Oliveira Guimarães compraria tais terras entre os arroios Grande e São Lourenço, prepararia com antecedência grande quantidade de agasalhos para quando os colonos chegassem, assim como o seu transporte do porto até a “Colônia”, alem de abastecê-los com bovinos, ovinos e aves para criação, podendo ainda tirar o dinheiro a prêmio para as medições das terras compradas e para sua subdivisão; a Rheingantz caberia o encaminhamento dos colonos, por meios legais, para os estabelecimentos coloniais da sociedade, abastecendo-os de comestíveis e ferramentas agrícolas por 6 meses a contar de sua chegada ao porto. Diz, ainda, que o agrimensor Othon Knüppeln foi contratado para os serviços topográficos, e que Oliveira Guimarães conseguiu os recursos, junto a terceiros, para financiar o empreendimento”.

Após estudo detalhado, Jacob Rheingantz comprou do governo imperial, em 30 de dezembro de 1856, oito léguas quadradas pelo preço de meio real a braça quadrada, com a condição de medi-las e demarcá-las no prazo de cinco anos, colonizando-as ao menos com 1440 agricultores de nacionalidade alemã, suiça ou belga. Assinado o contrato, retirou-se da firma de que era sócio, recolhendo o seu capital e a parte dos lucros que lhe cabia, aplicando todos os seus recursos no novo empreendimento. Alem dessa área adquirida do Império, teve de adquirir outras de particulares, para assegurar o acesso à Colônia. Mais tarde comprou de vizinhos diversas posses de terrenos para extensão da Colônia, totalizando no final 12 léguas quadradas, ou seja, 52.000 ha. Mesmo da área de 8 léguas adquiridas do governo, Jacob se viu forçado a comprar aos possuidores de concessões anteriores várias porções, ao que o Governo mandou incorporar áreas contíguas à Colônia a título de compensação. Sòmente em 1892, já sob o regime republicano, o Congresso Nacional, pelo projeto de lei nº 242, mandou abrir um crédito de 114:997$843 para pagar aos herdeiros de Jacob Rheingantz a indenização que lhes era devida pelas áreas que, concedidas, não lhe haviam sido entregues.
Conforme carta que lhe foi escrita pelo seu procurador ou correspondente, Luís Braga, inicialmente pensou Jacob em formar uma empresa colonizadora, com participação de outros sócios para formar o capital necessário. Datada de 31 de março de 1857, tal carta dizia o seguinte:

“Amigo e Senhor. Foi-me entregue o seu favor de 26 do corrente com 16$500 da certidão que eu havia pago ao tabelião Jeremias. Enquanto ao seu negócio da Colônia, não vai muito bem, segundo me disse o Paiva, pois há poucas assinaturas, sendo 2:000$000 do Aníbal, 1:000$000 do Ribas, 400$000 do Eliseu e algo mais. Todavia, o Aníbal foi hoje para a Costa a fim de agenciar assinaturas e pode ser que faça mais alguma coisa. O amigo Paiva me disse que o Dr.Afonso escrivia hoje a Vmcê. São poucos os homens de fortuna, em Pelotas, que possam conhecer as vantagens futuras duma Colônia bem estabelecida, pois só gostam de ver os seus dinheiros amontoados e sem aplicação alguma para benefício seu e do público: esta é a ilustração destes ricos que só enxergam a ponto do nariz. Meus respeitos à sua Família e sou com estima de Vmcê. amigo, obrigado. Luís Braga.”

Não conseguindo, pelos motivos sugeridos pela carta, formar a sociedade que imaginara, decidiu-se Jacob a levar adiante sua empresa individualmente, com seus próprios e exclusivos recursos.
Em maio de 1857, já envolvido na idéia que abraçaria e que considerava quase realidade, viajou para a Europa, obtendo êxito em sua missão. Regressou ainda mais confiante, tratando logo de preparar abrigos para os imigrantes que contratara, que em breve chegariam.
Já em fins de 1857, a 18 de dezembro, na Repartição Geral de Terras Pública, perante o seu Diretor, Conselheiro Manuel Felizardo de Sousa e Melo, assinava um termo de novação do contrato de 30 de dezembro do ano anterior. Tratava-se, pròpriamente, de um adendo ao citado contrato, referindo-se à medição das terras que seria feita pelo próprio Jacob Rheingantz mediante a indenização de 140 réis por braça linear de perímetro medido, cabendo ao Presidente da Província mandar verificar a exatidão das plantas a serem apresentadas em função do progresso da medição, com termo muito minucioso. Outra introdução referente ao contrato original diz que “A subvenção que o Governo Imperial pagaria por pessoa trazida para a colônia passava ao dobro do inicalmente fixado, ou seja, tornando-se 30$000 por imigrante entre 10 e 45 anos de idade, e 20$000 pelos menores de 10 e maiores de 5 anos, aumento esse provàvelmente pleiteado por Rheingantz depois de ter verificado na Europa os preços cobrados pelo transporte dos colonos. Nem a subvenção acrescida cobria mais do que uma parcela do custo da passagem. Tal termo aditivo foi aprovado pelo Ministro do Império em 9 de janeiro de 1958.

Esta postagem baseia-se no livro a ser brevemente editado, deste bloguista, intitulado "Dr.OSCA & SEUS EMPREENDEDORES ANCESTRAIS".

Passagem no rio Camaquã, São Lourenço do Sul, 1958







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